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TEXTO IV - "Quem olha para fora sonha, quem olha dentro desperta" (Jung)

Com este redemoinho acontecendo no mundo hoje, temos alguma esperança que a essência do ser humano, sua psique, esteja recebendo mais atenção? O foco da atenção direciona-se quase que totalmente para as funções conscientes. Jung nos adverte que toda noite recebemos sinais enviados das regiões inexploradas, de onde são produzidos os símbolos e é incrível que tão poucos deem atenção a este campo. A maioria o trata com desconfiança e desprezo dizendo “é apenas psicológico”, ou seja, “não tem nenhuma importância”. Os problemas doentios que nos afetam hoje são na grande maioria “solucionados” via engrandecimento do ego, através de cargas de intensos estímulos emocionais e/ou motivacionais vindos de fora, ou ainda, com alguma droga amortizadora, que deveria servir apenas para uma fase crítica em uma crise, mas torna-se essencial e eterno na vida do dependente, tratando assim sempre o sintoma e nunca o problema. Estas entre outras atitudes nos colocam sempre à espreita que alguém à nossa volta faça aquilo que não estamos dispostos a fazer.

Como não sabemos mesmo o que fazer, bem que poderíamos buscar no inconsciente algo de útil para todos, já que a mente consciente, a deusa RAZÃO não está nos ajudando muito! A avançada tecnologia, a elevada intelectualidade, os métodos de suprema eficiência profissional, não estão nos ajudando a colocar em prática ideias seguras de como lidar com o mundo. Fato é que as grandes religiões instituídas não nos têm ajudado muito a encontrar nossa essência interior, pois não entendem em profundidade os símbolos de sua própria mitologia e vão lapidando nossa consciência e negligenciando nosso inconsciente que é fonte original destes símbolos.

A história antiga da humanidade está sendo redescoberta pelo estudo dos mitos e dos símbolos, pela(o)s filósofo(a)s, historiadora(e)s e antropóloga(o)s e a psicologia hoje se depara com a necessidade urgente em nos ajudar a entender e decifrar as mensagens simbólicas do nosso inconsciente, pois elas são a chave para entender a formação da nossa psique.

Muitos destes símbolos antigos são encontrados nos mitos e/ou nos ritos de sociedades tribais contemporâneas que ainda são consideradas “atrasadas” pela maioria da sociedade moderna. Esta nossa desconsideração e rompimento com valores, hábitos e costumes dos nossos ancestrais fez com que perdêssemos o que a psicologia analítica chama de identidade psíquica ou “participação mística”, que é o campo das associações inconscientes (que se situa abaixo do nível da consciência) e quando por vezes algo dali se manifesta, insistimos em que “algo está errado”. Se um homem primitivo se defrontasse com alguma manifestação assim, não duvidaria da sua sanidade, mas acolheria a mensagem ancestral dos espíritos ou deuses internos. Somos às vezes assaltados por lembranças adormecidas e que foram despertadas por um odor ou uma música e podemos ter sensações benignas ou sintomas neuróticos e até ficarmos fisicamente doentes.

Para as antigas sociedades, os “deuses” eram expressões particulares que todos manifestam, quando os padrões instintivos levam o indivíduo para esta ou aquela direção. Este “deus” então seria a subpersonalidade que surge para compensar e “encarnar” uma necessidade psíquica. Os antigos tinham consciência do que psicologia hoje reconhece: a “doença” é na verdade o “sintoma” e deveria ser encarado como “caminho de cura”. Portanto estes “deuses” deveriam ser reconhecidos e obedecidos em seus aspectos positivos para evitar os maus efeitos de seus aspectos negativos.

Na sociedade moderna nossa tendência é “mandar o deus embora”, isso no início até pode parecer solução, mas se não houver uma mudança miraculosa por parte do sofredor, esse caminho levará a um desastre.

Há ainda a alternativa de “negar o deus” e no caso quem passaria a comandar é apenas a mente consciente que adota uma única “DIVINDADE” padronizada e comum para todos e moldada em parte pela sua mente consciente. Para isso funcionar o mundo tem que ser “lógico” as coisas tem que ser como “parecem ser”, há uma resposta “racional” para tudo e o “bem” sempre irá triunfar sobre o “mal”, senão for assim as coisas não darão certo! O resultado de “negar estes deuses” (estas forças que emergem do inconsciente) será o caminho certo para libertá-las e causar episódios devastadores, comportamentos inesperados, atos imprevisíveis e o sofredor é atacado por forças que não consegue entender, pois não as enfrenta pelo que elas são. Neste ponto, a pessoa dominada pelas forças negadas, não aceita que a DIVINDADE SUPREMA (onde ela projeta deus desejos) não consiga ser a autoridade absoluta e sua psique então, projeta seus sintomas nas pessoas e coisas “lá de fora” que agora para ele passou a ser separado do “aqui de dentro” e a culpa agora é “deles”.

É assim que somos e o nosso mundo é, projetamos no de fora o que negamos dentro não reconhecendo nossos “deuses” internos, ou seja, não assumimos a responsabilidade pela única coisa pela qual poderíamos nos responsabilizar – nós mesmos!

A grande ilusão social que vivemos é que enquanto a culpa for “deles”, eu não buscarei por mudanças em mim mesmo, pois estarei aguardando a mudança “de fora”, quando então tudo terá solução!

“Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta!” - Jung








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